
Construindo pontes para a pluralidade
Ana Carolina Pinheiro reflete sobre a falta de representatividade de mulheres negras nas revistas femininas e os impactos da inclusão atuando como jornalista
Por trás de cada reportagem, há uma vivência. Há um rosto por trás das páginas. Com isso, parte do jornalismo dá espaço para que isso transpareça. Para pessoas como a Ana Carolina Pinheiro, a profissão é uma oportunidade de compartilhar suas visões de mundo, enquanto conversa com uma leitora, historicamente, menos representada nas revistas femininas: a mulher negra.

Formada em jornalismo pela Cásper Líbero em 2018, Ana começou sua trajetória profissional com um estágio na parte de comunicação interna da Editora Abril. Embora tenha entrado na faculdade sem um foco específico para o mercado profissional, foram durante esses anos de aprendizagem que ela descobriu que poderia trabalhar com questões raciais no jornalismo.
"Eu fiz parte do coletivo negro da faculdade, que também foi uma ponte para me levar a esse jornalismo com um recorte mais racial. Com certeza fez diferença. Acho que isso também foi uma fusão de fatores das coisas que estavam acontecendo no mundo. Foi um período que ascendeu muito a questão dos debates. Eles já estavam fortes, mas acho que ficou mais próximo do público consumir esse tipo de conteúdo sobre feminismo, movimentos negros e pautas LGBTQIA+".
Uma coisa era certa, ela sempre gostou da ideia de escrever e atuar em redações. Desde a infância, Ana passava um bom tempo nos bastidores da Editora Abril acompanhando a mãe, que trabalhava na área dos Recursos Humanos da empresa. Tempo vai, tempo vem, e Ana participou de um processo seletivo para a revista Capricho.
Com essa tentativa, a editora da época a convidou para ter uma coluna própria na revista, justamente, para tratar as questões de moda, cultura, música e comportamento com um recorte racial. "Não sei se fui a primeira colunista negra, mas talvez sim. Sei que foi o primeiro blog da Capricho com esse recorte”.

Logo de primeira, a recepção do público foi bastante receptiva. "Acho que pessoas negras, assim como eu, nunca imaginávamos que um dia a Capricho daria espaço para esse assunto. 'Eu acompanhava e nunca me via', a maioria dos comentários eram nessa linha", reflete.
Enquanto escrevia para a coluna, Ana também acumulou experiências em outros veículos, como a revista semanal de hard news Carta Capital. Isso até que chegasse na redação da revista Claudia. Segundo ela, foi um "match perfeito" com a linha editorial do veículo, levando em consideração o posicionamento em prol das mulheres e o recorte sobre pautas identitárias.
"Acho que foi nesse momento que eu enxerguei que eu realmente me via como uma jornalista de comportamento. Eu escrevo sobre outras coisas, mas o que realmente me encanta e me conecto é com comportamento", confessa.
Revistas femininas e a diversidade nas redações
Para que uma mudança de fato aconteça em um veículo, é preciso de pessoas dentro dele movendo as engrenagens. Ele precisa acompanhar o que está acontecendo para não ficar para trás. Acima disso, é preciso que o próprio veículo esteja alinhado com seus propósitos e missões para ser bem-sucedido. Se o público são as mulheres, ele precisa fornecer informações e estar ao lado dessas mulheres.

Na perspectiva de Ana, muitos veículos femininos começaram a sentir uma cobrança para se posicionarem em questões que estavam sendo discutidas entre as mulheres. Feminismo, aborto, racismo, feminicídio e muitos outros fazem parte dessa leva. "Acho que chegou um momento no qual não tinha muito para onde correr. Acho que isso já vem acontecendo, mas olhando a situação política, foi preciso se posicionar e afirmar coisas que talvez as pessoas enxergassem como básicas".
Ou seja, é claro que um veículo voltado para o público feminino tem uma relação de apoio as mulheres. Com o passar dos anos, os títulos precisaram deixar isso explícito para ressaltar essa lealdade e se manterem conectados com as leitoras. "Se você não fala com uma frequência sobre o determinado assunto ou não aprofunda ou não cria um corpo para aquele tema ou linha editorial, você acaba ficando enfraquecido".
Embora uma quantidade significativa do público pressionasse os veículos, ainda há leitoras que não são familiarizadas com os "novos assuntos". Se engana quem pensa que elas são uma mera minoria. Considerando Claudia como um veículo acompanhado por uma mesma geração há décadas, a redação se encontrou em um momento tendo que conversar com idades e perspectivas diferentes ao mesmo tempo.
"É preciso ser mais didático e explicar. 'O feminismo está em ascensão', mas o que ele é? Como eu posso consumir? Como eu posso encontrar autoras negras que falem sobre determinado assunto?", cita os questionamentos. "Então acho que o jornalismo mudou para acompanhar o que já acontecia no mundo, que já acontecia fora. Para deixar isso mais palpável, mais didático e reafirmar esses direitos como algo mais real".

Conforme as redações foram entendendo melhor o público, tópicos importantes começavam a surgir. Pautas que não tinham visibilidade anteriormente, passaram a estampar as capas. Isso também reflete em uma troca mais intensiva com novas pessoas chegando no veículo. Não significa que jornalistas mais experientes não dessem conta do recado, mas profissionais como Ana tinham propriedade para trazer um repertório único. Tal repertório que uma maioria branca nas redações nunca conseguiria incorporar.
"A partir do momento que você começa a falar sobre liderança feminina, por exemplo, e você não tem liderança feminina na empresa, fica incoerente. Ou falar de pautas contra capacitismo e também não tem pessoas PCDs (Pessoas com Deficiência) na empresa. Ou falar de pautas trans e também não ter. Ou falar de racismo, mas não ter negros na redação".
Os movimentos de inclusão praticados pelas empresas são importantes para que a mudança seja verdadeira na própria estrutura de funcionários. Na concepção de Ana, a Claudia sempre foi uma espécie de revista de vanguarda, por se posicionar em assuntos importantes para as mulheres desde o século passado. Como é o caso do direito ao aborto. Porém, as gerações mudam e isso pode criar uma resistência.
"A revista mudou fortalecendo o que já fortalecia. Nunca foi uma revista conservadora, mas teve uma resistência das leitoras, principalmente de assinantes. Normalmente, assinante é uma galera que já está há mais tempo".
Tendo isso em vista, é de se imaginar que o público cobrando posicionamentos da revista era uma minoria. Por isso que, para Ana, grande parte da iniciativa para uma mudança veio de dentro da editora. O objetivo era dialogar mais com as novas gerações, uma parcela menor entre o público de Claudia.
Em comparação, ela comenta que sentiu um movimento reverso na redação da revista Capricho. Lá, por ter um público mais jovem, a demanda por posicionamentos em questões de empoderamento feminino, direito das mulheres, questões raciais e apoio a minorias, como a LGBTQIA+, tornou-se uma exigência. Assim, a revista atendeu aos pedidos rapidamente.
Consumir no digital e comentários instantâneos
Outro desafio que Claudia tem enfrentado, além de entender melhor qual o seu público atual, é como direcionar o conteúdo para as leitoras. Hoje em dia, é impraticável que os veículos não estejam presentes no ambiente virtual, afinal, é lá onde o público se encontra. Para um título que nasceu no formato impresso, a missão está em migrar para esse outro modelo.
"Antigamente, eu lia a revista na minha casa e você estava lendo na sua. Às vezes você podia reparar em algo que te incomodou, mas a gente não faz parte do mesmo grupo. Então talvez, esse questionamento não chegasse em outras pessoas. Acho que a internet aproximou as leitoras”.
Com os meios digitais, não foi apenas o caminho da informação para o público que passou por alterações, mas a interação desse público com o veículo. Na internet, as reações são muito mais rápidas e conectadas. Literalmente, em rede. Analisando com metáforas, é como se, antigamente, a leitura fosse individual. Hoje, é um grupo de leitura onde ideias e percepções são compartilhadas em tempo real.
"Você publica uma matéria e já tem uma ideia do que as pessoas estão achando. É diferente de mandar a matéria para a gráfica, da revista ir para a casa da assinante ou da pessoa comprar na banca para que então você tenha uma ideia sobre a opinião".
Por mais que a rapidez seja uma vantagem para receber o "feedback", ela também é um risco em relação às reações negativas. Na internet, a imagem de um veículo pode ficar manchada em uma questão de segundos. Para Ana, isso ajuda a redação em mensurar o que funciona e o que não funciona para o editorial.
As reações de um público racista
A vocação para falar sobre questões raciais e sociais no mundo foi o que deixou Ana mais confortável no começo da carreira. Agora, aos 26 anos, ela continua a acumular repertório nesse nicho do jornalismo. Conforme foi colecionando essas experiências, ela observou muito as reações do público sobre o conteúdo que produzia.
"Na Claudia, tinha uma resistência por ser um público mais conservador e elitizado. Então, dependendo da pauta, principalmente questionando a branquitude, com certeza vai ter mais comentários e críticas negativas".

Inclusive, Ana comenta o caso de um internauta que não concordou com alguns pontos que escreveu em uma matéria. Começou com um e-mail agressivo em resposta e continuou até que ele a encontrou em todas as redes sociais, mandando mensagem em todos os canais. "Ele queria saber se eu era negra, dizendo que ‘só podia ter sido um negro que escreveu aquilo’. Ele queria dizer que não existe racismo".
Depois do ocorrido, ela procurou o sindicato para fazer um registro do caso de violência. Afinal, qualquer ato racista, verbal ou físico, é uma violência. "São tantos absurdos. Resumindo, são pessoas racistas. Eu ia falar 'conservadores', mas são pessoas racistas".
Ainda na redação de Claudia, comentários que buscavam igualar a luta da mulher negra com a das mulheres brancas também eram frequentes, independente do foco da matéria. "Acontecia de pautas como 'mulheres negras são as que mais morrem em São Paulo, segundo pesquisa tal' e aí iam comentar 'mas e as brancas? mulheres brancas também morrem'".

Por mais que essa recepção não fosse pouca ou exclusiva de matérias específicas, Ana afirma que nunca foi desencorajada de publicá-las, muito pelo contrário. Na época que passou pela redação de Claudia, jornalistas como Guta Nascimento e Isabella D’Ercole sempre a incentivaram a ocupar esse espaço. Desistir ou andar para trás estava fora de cogitação. Deixar de produzir, isso sim seria um retrocesso.
Um laço pessoal com o universo feminino
Subindo os primeiros degraus de sua carreira como jornalista, Ana reconhece que ainda tem um longo caminho pela frente mas, até o momento, o universo feminino segue acompanhando-a. No final de 2021, ela se despediu da Claudia. O encerramento desse ciclo, abriu portas para ela que realizasse outro sonho: morar em Nova York.
Atualmente residindo na metrópole norte-americana, Ana segue atuando como freelancer para veículos como Glamour, Vogue e a plataforma Mequetrefismos. "Eu não sei como cheguei até aqui a partir dessa relação com o universo feminino. Mas, obviamente, pela existência e pela vivência enquanto uma mulher. Enquanto uma mulher negra".
Por mais que seguisse um ritmo bastante corrido na redação de Claudia, o trabalho que exercia era de encher o peito. Além de realizar entrevistas, que era sua parte favorita, ela é grata por ter trabalhado em um veículo alinhado com seus propósitos. Sua maior motivação era ouvir histórias de mulheres, conhecer projetos femininos e, acima de tudo, apresentar esse material para outras mulheres.

"Tenho uma questão forte com essa parte política de direitos, estão acho que, em consequência, inconscientemente, é uma forma que eu me vejo atuando. É um movimento de luta. Eu me sinto útil fazendo algo assim. Sei que não estou mudando o mundo, mas eu estou fazendo alguma coisa".
Toda a consciência com questões femininas e a vontade de compartilhá-las, mostra como profissionais iguais a Ana são essenciais em uma redação. Não basta se comunicar com um público ignorando os nichos e as diferenças presentes no mesmo. Justamente, as diferenças formam a diversidade.
O público de Claudia não é unicamente composto por um padrão de mulheres. E mesmo que fosse, é contra os próprios ideais da pluralidade que ele trate somente de assuntos exclusivos a esse grupo social. É sobre alcançar leitoras negras e apresentar questões de mulheres negras para as que não são. Essa lógica se aplica a qualquer minoria.
De qualquer forma, as revistas femininas continuam com um legado de companhia para muitas mulheres. Em meio a tantas mudanças nos veículos de comunicação, o fim desses meios está fora de circuito. Inclusive, para Ana, segmentar o conteúdo é uma forma de aumentar a vida útil das revistas.
"Isso abre espaço para você falar de assuntos que, às vezes, não estão no dia a dia das pessoas, mas elas precisam escutar", explica. "É você ter esse papel sério do jornalismo, no sentido de checagem, posicionamento e trazer conteúdos relevantes".
Claudia, Marie Claire, Glamour e vários outros veículos voltados para o público feminino são bastante conhecidos pelas editorias de moda e beleza, mas isso não impede os mesmos de criarem conexões com pautas da sociedade. Inclusive, isso é algo que esses títulos já praticam há um bom tempo. Com o passar dos anos, as abordagens foram mudando e ampliando o alcance para fazer mais pontes com o público.
"Ser um instrumento para a pessoa que vai pegar aquele material, seja ele físico ou digital. De encontrar novos mundos e abrir o olhar. Acho que quando a gente pega uma revista ou abre um site, é sempre nesse sentido de se aprofundar em alguma coisa. Não no sentido de virar especialista só porque você viu a matéria, mas de pensar 'nossa não tinha pensado nisso antes’”, conclui.