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Os meios se transformam e as revistas sobrevivem

Enquanto conta sua trajetória na revista Claudia, a jornalista Isabella D’Ercole exalta a resistência e importância das publicações femininas na era digital

Como todo jornalista sabe, a base da comunicação é ter uma mensagem para passar adiante. Um emissor envia a informação ao público receptor. Diferentemente do que seria uma troca comum, o jornalismo fica encarregado de averiguar e contextualizar essa informação. A busca pelo conhecimento em prol de realizar um bem maior é o que move muitos jornalistas. Como é o caso de Isabella D'Ercole.


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Quando cursava o Ensino Médio, Isabella recebia elogios pelos seus textos e a literatura sempre foi algo que a interessou. Esses aspectos despertaram o interesse para dois caminhos: Jornalismo e Relações Internacionais. Atraída pela praticidade de locomoção e proximidade de casa, ela optou pelo curso de comunicação na Cásper Líbero, onde se formou em 2011.


Embora esteja constantemente questionando suas escolhas, ela carrega uma mentalidade bastante analista e observadora. Isso a ajuda a respeitar seu próprio tempo. "A gente começa a faculdade com um caminho que depois a gente pode expandir para muitas outras coisas e até repensar se eu não quiser mais fazer isso. Eu posso mudar de carreira. Mas ninguém conta muito isso para a gente", comenta.


Seus anos como estudante de jornalismo passaram voando. De semestre em semestre, Isabella ia entendendo qual caminho queria seguir na profissão. Seu primeiro estágio foi em um projeto de boletins de subprefeituras, realizado pela Prefeitura de São Paulo. Sem muitas expectativas sobre a área, esse compromisso acabou mostrando um aspecto do jornalismo com o qual mais se identificou: ouvir e contar histórias.


"Ali, eu entendi que gostava muito de falar com pessoas que me ensinavam e me falavam coisas novas. Então, eu ouvi histórias que eu não teria ouvido e conversava com pessoas que, possivelmente, nunca teria encontrado. Foi uma oportunidade muito rica. Quero que as pessoas me falem coisas que eu nunca senti, que eu nunca experimente, que eu nunca vi. Quero que elas me deem a visão de mundo delas".


Com o tempo, ela entendeu que o que a movia como jornalista era conversar com pessoas, independente do assunto a ser tratado. Um verdadeiro fascínio por histórias e sempre com a cabeça para novos conhecimentos. Poucos meses depois, buscando novos desafios, Isabella entrou em um processo seletivo na Editora Abril, o primeiro passo para sua trajetória na redação da revista Claudia.


Contando histórias de mulheres para mulheres

Acumulando mais de doze anos no título, ela definiu a redação da revista como sua verdadeira "escola de jornalismo". Embora nunca tenha tido um interesse significativo para trabalhar em veículos voltados para o público feminino, Isabella entendeu logo de primeira que as editorias de moda, beleza e comportamento tratavam de assuntos muito além da superficialidade.


"Comecei contanto histórias variadas, desde histórias de pessoas até a história da lentilha. Tinham muitos temas na Claudia, então eu podia ficar passeando porque eu era estagiária geral, não tinha uma editoria única. Eu ficava passeando entre um tema e outro, descobrindo coisas novas".


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Os primeiros meses de experimentação foram responsáveis por despertar uma verdadeira paixão de Isabella pelo trabalho. "Foi onde eu entendi que, sendo jornalista, eu podia fazer outras coisas. Eu não precisava ser jornalista só para escrever e trabalhar só em uma questão na redação. Eu podia ser editora de decoração, montar cenários, fotografar casas e ainda assim, eu estaria em contato com pessoas. Porque aquelas casas eram histórias de pessoas e tinha a ver com a relação das pessoas".


Além desses aspectos, ela confessa que precisou romper com a sua bolha para adquirir um olhar mais amplo. Consciente dos seus privilégios, advindo de uma realidade como mulher branca de classe média, essa noção é obrigatória para exercer seu trabalho como jornalista. Afinal, apesar de a revista tratar diversos assuntos prazerosos, ela também conversa com um público que enfrenta lutas diárias no sistema patriarcal e racista.


"Eu estava trabalhando na Claudia quando a Lei Maria da Penha finalmente entrou em uso, depois de anos em julgamento. Eu tive o prazer de conhecer e entrevistar a Maria da Penha. São histórias que vão transformando muito a gente, fazendo a gente entender e criar empatia pela outra. Mais do que isso, é saber que eu não serei livre enquanto outra mulher não for".

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Não demorou muito para que Isabella encontrasse um ritmo entre seus propósitos e aplicasse os mesmos em seu trabalho na Claudia. "A gente não pode aceitar que a nossa realidade é muito boa e a realidade dos outros é simplesmente terrível. Então eu acho que isso foi abrindo meus olhos para o que é ser mulher. Ser mulher não é uma coisa única, não é uma fórmula".


Com o passar dos anos, ela foi passando pelos cargos de repórter, editora-assistente, editora de comportamento e redatora-chefe, até que chegasse à posição de editora-chefe da revista. Toda essa percepção empática e justiceira continuou guiando o conceito pré-estabelecido de Claudia como uma aliada das mulheres.


"Claudia foi acompanhando uma evolução e acho que ela fez um excelente trabalho de ir se renovando. Foi meu maior contato com um feminino tão forte, tão intenso. Entendi que o feminino não é uma coisa só".


Transformações da sociedade refletem na revista

Partindo da ideia de que os veículos são resultados do tempo em que estão inseridos, não é uma surpresa que temas tratados anos atrás de uma forma estejam sendo abordados de outra atualmente. A questão do divórcio e a retratação da mulher solteira como algo pejorativo é algo que chamou atenção de Isabella nos primeiros momentos.


"Logo que entrei na Claudia, lembro que fiz algumas matérias sobre mulheres que não queriam casar e nem ter filhos. Naquela época era uma declaração chocante e estamos falando de 2010/2011, sabe? Faz dez anos. Era chocante que uma mulher não queria ter filhos?", questiona em alto.


Embora houvesse polêmica e preconceitos, ela afirma que não havia impedimentos para os temas propostos. Segundo Isabella, era uma redação livre de criação com muita liberdade. Porém, no fim das contas, a revista refletia os debates da época. Quando algo estava sendo discutido, Claudia também discutia. Ou seja, embora escolhesse pontos para defender, ela não estava além do seu tempo.


Há anos, outro assunto que segue presente nos editoriais de Claudia é o aborto. Sendo um dos primeiros veículos brasileiros a defender o direito e a descriminalização do aborto, o tópico sempre esteve em pauta na revista. Como filha de uma médica, Isabella explica que já tinha muita familiaridade com o assunto pelas conversas com a mãe em casa.


Feminista de carteirinha, ela defende a causa desde que entendeu a importância de movimentos em prol dos direitos femininos. Por outro lado, para trabalhar a questão na revista foi indispensável compreender melhor sobre a acessibilidade de mulheres, com realidades diferentes, ao aborto e as informações em si.

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"A gente já passou por diversos momentos de correção, de olhar e falar 'não podemos falar isso', 'não podemos fazer isso', 'isso está errado', 'essa entrevista não está certa'", disse. "Acho que a gente está aqui assumindo um viés, assumindo a nossa parcialidade. A gente é parcial a favor da mulher".


Nesse meio tempo, Isabella também observou acontecimentos que marcam a mídia feminina e o contexto político do Brasil. Ela relata uma história em meados de 2010, quando Dilma Rousseff assumiu a posse como a primeira mulher na presidência brasileira. Na época, uma das editoras da revista era a jornalista Patricia Zaidan, e ela organizou com mais de 100 instituições para mulheres um documento com pautas que o público feminino esperava do governo.


Patricia reuniu organizações iam de suporte às mulheres vulneráveis até católicas pelo direito feminino. "Ela foi entregar em mãos para Dilma no dia da posse. Tinha muito essa questão de ser um veículo que está junto. A gente quer conquistar e lutar junto com as mulheres. Às vezes, sinto falta disso no jornalismo de hoje, que é um jornalismo muito de tentar ser imparcial. De contar histórias e afirmações em terceira pessoa, mas não vai lá e fala 'olha, isso aqui é o nosso propósito'".


Além de movimentações como essas, transformações sobre as maneiras de abordar um determinado assunto vão acontecendo. Como uma engrenagem que não para e vai se adaptando ao seu tempo. Sendo um veículo que conversa com mulheres, ele deve refletir a leitora, tanto no aspecto simbólico, como no literal. Por isso, Isabella explica que sempre visou formar equipes com diversidade e, acima de tudo, gostava de ser questionada.


"É muito importante porque garante que esse veículo vai chegar ao ponto mais plural possível ali. Apesar de uma pluralidade total ser impossível, a gente está falando de um veículo comercial e de um objetivo de venda final". Para ela, se trata de entender como aplicar esses princípios dentro de um sistema capitalista.


O papel e a era digital

Durante sua trajetória na Claudia, Isabella pode acompanhar o impacto dos meios digitais na redação. Sendo criada no início da década de 60, a revista vem de uma época na qual não existia Google ou acesso fácil a informação. Principalmente em relação a assuntos que interessavam as mulheres. Dessa forma, a revista tomava o papel de uma fonte, passando a mensagem para as leitoras, quase como uma "amiga".

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Saúde, beleza, família, casamento, culinária e, até mesmo temas mais "progressistas" para a época, como mercado de trabalho e direitos femininos, estavam inseridos nas páginas da Claudia. Por outro lado, com a dispersão de informação trazida pela era digital, as revistas femininas deixaram de ser a única fonte. Ela deixava de ser essencial na rotina da leitora para se tornar um lazer.


Hoje em dia, a dinâmica é outra. Quem lê a revista, lê por vontade própria, não por que precisa. "É uma mudança que, do lado comercial, precisa ser pensada. Como você se torna uma figura de presença essencial, pelo lazer e pelo prazer para a pessoa quando ela não precisa de você para ter informação?", questiona Isabella.


Embora a dinâmica do mercado editorial tenha se transformado, ocupando mais o espaço virtual, as revistas ainda se destacam pelo seu conteúdo único. Podem não ser mais a única fonte de informações, mas o que ela passa e como passa, é um formato singular em síntese. "É uma informação que vai a fundo, não é só você olhar um desfile e falar 'poxa, rosa está na moda'. Não. É 'por que rosa está na moda?', 'por que a gente está vivendo essa tendência?', 'de onde ela vem?', 'qual a origem dela? '. É a gente entender o 'porquê das coisas'".


Com isso, outro ponto que vale ser destacado é que, por ser um veículo informativo, a revista tem acesso. Seja para um evento, a uma fonte, a um artista. Ela leva a informação para um público específico. "Não é o hardnews. Não é um livro. Ela é uma linguagem própria. Por isso que eu acho que ela nunca deixará de ser buscada e essencial, mesmo que não seja para todas as pessoas".


No ponto de vista de Isabella, há uma percepção errada sobre as revistas na era digital. Segundo ela, muitos fazem uma associação com o fim da revista impressa a um fracasso. Como se as revistas estivessem morrendo. Acontece que, em um país com a dimensão do Brasil, o sistema de impressão é muito custoso. Papel de qualidade é caro e o transporte também.


"Às vezes, as pessoas não têm noção de quanto custa produzir uma revista. É muito dinheiro. Então, em um mundo que está cada vez mais digital, não é uma ideia maluca você parar de imprimir uma revista", declara. "Nem sempre o fim de uma revista impressa e a continuidade no digital é um fracasso, uma derrota ou um fim".


Entendendo o propósito do jornalismo e dos veículos de comunicação, Isabella tem muito claro que a profissão precisa ir até o seu público e não o contrário. As revistas precisam ir até onde as leitoras estão. Se elas estão no meio digital e nas redes sociais, é lá que a revista deve estar. Caso não chegue ao seu consumidor, está no caminho errado.


Claro, transitar e se firmar no ambiente virtual ainda é um desafio. É um mistério para todos os veículos de comunicação. Principalmente, com novas redes sociais surgindo a cada momento. Facebook, Twitter, Instagram, Snapchat, TikTok e outras apresentam novas formas de produzir conteúdo. Até agora, não há uma fórmula mágica para "viralizar".


É uma questão de entender o que engaja e como engajar. Atenta a essa questão, Isabella comenta sobre pesquisas recentes que mostram como a geração Z deixou de pesquisar informações no Google e vão buscar direto no TikTok. Por isso, ter domínio sobre SEO, hashtag e outros mecanismos que auxiliam a espalhar a informação se tornaram uma demanda aos novos profissionais da área.


"'Por que o aborto está correndo perigo nos Estados Unidos?'. Se eu sou uma revista feminina, eu tenho que estar falando desse tema em qualquer lugar, nas plataformas onde as pessoas estão. Eu tenho que entender como eu vou criar esse conteúdo". Afinal, as formas de consumo e produção de conteúdo variam de rede em rede.


Enxergando os avanços tecnológicos com um aspecto mais positivo, Isabella considera as redes sociais como mais formas de entrar em contato com pessoas. Para a mídia, isso é muito bom. Até mesmo a questão dos "influenciadores digitais", as consideradas celebridades do mundo virtual, são algo para os veículos direcionarem uma atenção especial.


"Por muito tempo, o jornalismo enxergou influenciadores como concorrentes. Não é isso. Eu acho que muita gente já entendeu que eles são aliados", explica. "Eu [marca/veículo] trago para perto de mim, porque daí eu ganho a base dela e me apresento para mais gente. Acima de tudo, eu continuo ali definindo o que é pauta e o que não é. Meu papel de 'gatekeeper' não acabou totalmente. Eu continuo falando o que é importante. O ponto disso é cuidar da informação".


Por mais que sua trajetória na revista Claudia tenha chegado ao fim, a busca por conhecimento de Isabella não tem data para acabar e, provavelmente, será eterna. Procurando entender os novos mecanismos da era digital e seguindo com o seu propósito de ouvir pessoas, ela tem em mente que as transformações são consequências naturais para a sociedade.


"Acho que a gente precisa deixar de ter uma visão tão catastrófica das coisas, como 'meu Deus tudo vai acabar'. Não vão acabar. Elas vão se transformar e não tem nada de novo nisso. As coisas se transformam desde o início da humanidade. Afinal, cá estamos com transmissões ao vivo. Nossos antepassados jamais poderiam imaginar que isso aconteceria", declara.


"Se [o fotógrafo] Cartier-Bresson visse o que é uma câmera hoje em dia, acho que ele ficaria em choque absoluto. Então, não há nada de errado em evoluir".


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